Sobre Contratos e Repasses

Como atuei no cenário de “League of Legends” e também no de “Counter Strike: Global Ofensive” no Brasil, pude ter uma noção de como muitas organizações atuam e como é a idoneidade delas, então vou deixar um pouco da minha experiência e visão sobre o assunto nesse artigo mais informal.

Os cenários de CS:GO e de LoL se diferem muito por conta de uma coisa chamada “entidade reguladora” que existe no LoL profissional, a Riot Games, mas no CS é “mais ou menos” a Valve, que acaba regulamentando mais banimento de jogadores da plataforma e não tem uma grande atuação com times.

Uma mudança no Brasil que veio nesse último ano foram as ligas, CBCS e Clutch, que regulamentam o próprio ecossistema e vou falar mais à frente sobre o porque isso é importante.

No LoL Profissional, times que participam dos campeonatos oficiais da Riot não podem aliciar jogadores, do contrário isso gera problemas com a entidade reguladora, punições, etc, logo, os times NÃO podem demonstrar interesse ou fazer propostas a jogadores sob contrato a qualquer momento do ano.

Há uma apenas uma exceção nisso (perdoem caso eu cometa algum erro aqui, pois não estou com o regulamento em mãos), durante o período da janela de transferência, quando isso acontece, segue o seguinte “script”:

  1. Organização X tem interesse em jogador, verifica se ele tem contrato
  2. Caso ele tenha tenha, entra em contato com a Organização Y (que é a detentora do contrato do jogador)
  3. A Organização Y por sua vez é quem decide se repassa ou não isso ao jogador.
  4. A partir daqui, cada Organização segue com seu próprio sistema, filosofia ou estratégia de negócios.
  5. Caso o Jogador não esteja sob contrato, se trata diretamente com ele.

Essa regra é importante para as organizações pois elas podem proteger seu investimento, no entanto isso também abre espaço para que elas possam trabalhar com especulação e até vetar a saída de um jogador atrapalhando a carreira dele em alguns casos escrotos.

Um dos motivos pelo qual uma organização pode vetar sem sequer comunicar o interesse a um jogador é para que isso não gere “descontentamento” do jogador, caso ela não esteja interessada em abrir mão dele, utilizando para isso cláusulas como multas altíssimas para prevenir isso.

No entanto existem organizações e organizações. Algumas trabalham de forma transparente e graças a isso tem seus benefícios mas também problemas advindos dessa prática, enquanto outras Organizações fazem valer 100% do contrato para resguardar seus “recursos humanos”.

Já no Counter Strike Brasileiro isso não acontecia da mesma forma, era comum que organizações com mais poder financeiro tivessem mais poder de negociação e sem uma entidade regulamentadora, podiam abordar jogadores sem qualquer necessidade de contatar a organização que estava com o contrato dele.

Isso pode parecer interessante para os jogadores, mas cria um ambiente extremamente tóxico que pode afetar os jogadores de formas que eles sequer imaginam. Um exemplo comum disso é que ao ser sondado por algum time, um jogador perca seu foco em treino ou mesmo durante um campeonato. Lembrem-se que os jogadores em sua maioria são jovens e em times com menor poder financeiro, nem sempre contam com respaldo necessário para lidar com isso.

Além disso, alguns (eu estou incluso) consideram que esse ambiente totalmente aberto cause problemas a times que estão começando, times menores e a times com um menor poder financeiro.

Graças a essa situação, o cenário de CS:GO no Brasil era literalmente uma zona até aparecerem as ligas “fechadas”, CBCS e Clutch, que passaram a ser entidades reguladores de suas próprias ligas e dos times sob contrato com eles. Logo, os times que participam de uma liga estão ligados aos outros times da mesma liga e devem seguir as mesmas regras que, normalmente, previnem o aliciamento.

Existem pelo menos dois pontos de vista principais que devem ser levados em consideração ao se pensar nessa questão: Dos jogadores e o das organizações.

Enquanto para o jogador é vantajoso saber das ofertas e poder decidir seu destino sem se prender a times, isso pode gerar por parte das organizações um maior receio em investimentos, já que a qualquer janela de transferência esse investimento pode sair pela porta, afinal, não estamos em época de escravidão e um jogador pode muito bem decidir sair do time em que joga caso queira.

Já para as organizações, ter a segurança de proteger seu investimento permite que ela possa fazer investimentos maiores e que façam parte de um planejamento maior do que apenas de seis meses (geralmente o tempo entre uma janela de transferência e outra), mas acaba por tirar um pouco da liberdade do jogador de poder receber mais ou receber propostas que sejam mais interessantes a ele.

Isso acaba sendo um jogo de interesses onde ao meu ver não existe uma resposta certa e nem um lado certo, tanto jogadores quanto organizações tem pontos que os fazem preferir mais um lado dessa discussão.

Existem tanto jogadores com má intenção quanto organizações de conduta no mínimo questionável, não é um conto de fadas e gente má-intencionado existe em todos os níveis dessa doidera que é o cenário de esports embora aos poucos elas sejam expelidas naturalmente (exceto quando são pessoas com poder ou com bastante dinheiro).

Um exemplo comum que existia no cenário de LoL antes da regulamentação e existe no CS por ter duas ligas é o de times não vinculados a uma liga e que atuam de forma predatória, demonstrando interesse por um jogador, não tendo interesse em pagar a multa necessária para contratá-lo e com isso gerar um desconforto entre a organização em que o jogador se encontra e o próprio jogador.

Infelizmente muitos jogadores caem nessa jogada de “envenenamento” que acaba por fazer com que eles tenham uma queda na atuação, diminuindo seu valor ou mesmo gerando insatisfação por parte da organização que pode acabar não tendo alternativa a não ser liberá-lo por um valor baixo, prejudicando seu planejamento e operação.

Já do outro lado, existem jogadores que não cumprem com seus contratos e buscam formas de se libertar dele, sem responsabilidade e sem profissionalismo. Uma pausa é necessária aqui para se falar sobre esses contratos.

Uma regra comum no nosso cenário é que, os jogadores estão tão interessados em jogar e, iludidos por um sonho de atuarem profissionalmente, que é quase regra que não prestem atenção a seus contratos, não busquem respaldo legal para eles e não consigam proteger seus próprios interesses, enquanto as organizações tem sempre ao menos uma pessoa para cuidar disso.

Graças a esse amadorismo por parte dos jogadores, completamente compreensível já que são em sua esmagadora maioria jovens sem sequer experiência profissional, muitas organizações acabam criando contratos bem complicados e que permitem que muita coisa ruim seja feita dentro da legalidade, fazendo com que, quando os jogadores tem seus olhos abertos e conseguem enxergar além do deslumbramento, estejam em situações do qual não podem sair facilmente.

Uma coisa que pode ajudar muito os jogadores nessa situação geral é justamente o contrato, eles podem sim pedir que seja inserida uma regra em que a organização contratante tenha obrigação de revelar e ele todos os times que tenham interesse em seu contrato, com multa para as organizações caso elas não cumpram isso, assim como eles normalmente tem inúmeras possibilidades de multas para proteger os interesses das organizações.

O que fica claro é que o profissionalismo ainda tem muito caminho para ser percorrido antes de se tornar uma regra no cenário, com algumas organizações tóxicas e outras atuando de forma amigável e que busca um crescimento geral.

Infelizmente o que acaba acontecendo como regra geral é um velho ditado que diz que a corda sempre estoura pro lado mais fraco e, previsivelmente, esse lado quase sempre é o jogador.